O CLÁSSICO DO FESTIVAL

Un Homme et Une Femme

O CLÁSSICO DO FESTIVAL

UM HOMEM E UMA MULHER DE CLAUDE LELOUCH
HOMENAGEM AO 50O ANIVERSÁRIO DE LANÇAMENTO DO FILME

Se a história da carreira de Claude Lelouch tem um protaganista, é o filme Um homem e uma mulher. Até 1964, ele realiza 3 filmes e todos fracassam. Ao sa­ber que o último deles, Les grands moments, nem teria distribuição nos cinemas, Claude Lelouch, devastado, pega a estrada e segue noite aden­tro, sem destino certo. Pela manhã chega à praia de Deauville: olhando ao longe, com a luz entrecortada pelo sol nascente, Lelouch observa uma mulher caminhando na areia com uma criança. Com essa imagem nasce a ideia do roteiro de Um homem e uma mulher, no qual Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée vivem uma paixão no mesmo litoral. Esse filme realizado com poucos recursos (a mistura de cenas a cores e em preto e branco tem a ver com questões de orçamento!), Claude Lelouch conhece a fama bruscamente em 1966, aos 29 anos. Palma de Ouro no Festival de Cannes, coroado com dois Oscars e qua­renta recompensas internacionais, o filme surpreende com seu estilo em flagrante, devido à espontaneidade dos atores e a virtuosidade de uma filmagem com a câmera leve. Hoje, com quase 80 anos e 50 longas metragens, Lelouch parece insaciável. Em 2015, filmou na Índia Un + Une, uma comédia român­tica com Jean Dujardin. O diretor recebeu com muito ânimo o convite para vir ao Brasil comemorar os 50 anos de Um homem e uma mu­lher com o Festival Varilux 2016, mas estará em preparação para seu próximo longa metragem.

A HISTÓRIA BRASILEIRA DO FILME

Lamento não estar com vocês, sobretudo por que a presença da música Samba Saravah no filme é uma história digna de uma lenda… Eu já tinha participado como ator de um filme de Lelouch, Une fille et des fusils. Um dia, Lelouch fala do projeto Um homem e uma mulher. Eu apresento a ele Jean-Louis Trintignant que sugere Anouk Aimée. Também falei para ele sobre o talento do compositor Francis Lai (na época, o jovem acordeonista de Nice tinha acabado
de conhecer Edith Piaf e tocava em bailes). Um acordeonista de Nice?… Lelouch fica cético, mas
eu e Francis tínhamos escrito uma música com os mesmos aromas da história que ele tinha acabado de me contar. Em Montmartre eu e Francis cantamos para ele Plus fort que nous: Lelouch adora e diz: “Guarde para meu filme”.

Logo depois me propõem um papel como ator no Brasil no filme Arrastão, les amants de la mer, de Antoine d’Ormesson, filmado em Itaipu. Falo com Lelouch sobre isso e ele me diz: “Vai. Ainda não te­nho recursos para filmar …” A equipe do filme dormia em Niterói, eu adorava essa cidade e fiz amizade com pescadores, então ficava lá e só ia ao Rio no domingo, onde passava as noites com Baden Powell.

O filme termina, eu estava tão bem que nem pensava em voltar, quando recebo um telegrama de Lelouch: “Volte, vamos filmar”. Última noite com Baden e (ufa!) finalmente escrevo o texto em francês de “Samba da benção”. Há meses Vinicius de Moraes insistia para que eu propusesse a ele uma versão, mas eu tinha muito medo de trair a canção. No úl­timo dia, passamos a noite toda cantando até 9h da manhã na casa de Baden. O avião partia às 14h. Para guardar um vestígio, gravamos a música num revox, em somente uma tomada. Chego ao aeroporto de Paris, Lelouch vai me buscar e falo para ele: “Quero que ouça uma música”. (Eu não pensava no filme dele, pois, à priori, não tinha nada a ver). Lelouch ouve várias vezes e três dias antes do começo da filmagem diz: “Vou mudar meu roteiro e incluí-la no filme.” A versão presente no filme e no disco é a que foi gravada num revox no Rio, numa tomada, após uma noite sem dormir…

Consegui integrar 3 amigos e 2 músicas no filme! Eu sou fascinado pela virtude dos imponderáveis, mas foi por ter poucos recursos que tivemos essa liberdade. Um produtor nunca teria entrado no jogo : um acordeonista de Nice, uma música brasileira?…

É isso. Não disse tudo, mas…

Do amigo
Pierre Barouh
Compositor e ator


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